Acabou-se o que era doce
Finalmente! Quase com um ano de atraso anuncio a morte definitiva desse blog. Quem quiser acompanhar as cenas do próximo capítulo favro dirigir-se a http://ocaminhonaotrilhado.blogspot.com
Grato,
A gerência
Finalmente! Quase com um ano de atraso anuncio a morte definitiva desse blog. Quem quiser acompanhar as cenas do próximo capítulo favro dirigir-se a http://ocaminhonaotrilhado.blogspot.com
Grato,
A gerência
Depois do último post o leitor mais carinhoso desse blog, iGOR Felippe Santos, que no seu primeiro comentário me chamou de boiola por ter criado um blog e em seguida criou um para ele mesmo, teceu o seguinte comentário:
"Esse blog é um diário de bordo da minha viagem, que começou no último dia 7 de março, depois de muitos preparativos aos trancos e barrancos. Eu poderia dizer que esse é um diário só sobre a minha viagem para o Equador", escreveu Fiuza.Bruno. Ou seja, este blog não faz mais sentido...hhaahhahahahha
Apesar de detestar isso, sou obrigado a concordar com ele. Realmente, desde a última quarta-feira, dia 15, já não estou no Equador, nem em Chiapas, mas sim estou de volta à minha "cidade natal": São Paulo (cidade natal entre aspas porque na verdade eu nasci em Brasilia, mas minha casa é e sempre foi São Paulo). Enfim, pelo menos por hora minha viagem aparentemenete terminou. Diante disso, já não faz mais sentido escrever em um blog chamado "good morning quito" a partir de São Paulo.
Dizem que as despedidas são bons momentos para se refletir sobre as coisas, certo ? Então vou aproveitar para fazer isso com esse blog aqui. Poderia dizer que a história de vida dele tem um quê de disparate... comecei a escrever coisas nada a ver, surpreendentemente várias pessoas começaram a ler e finalmente quando conquistei um certo "público leitor" simplesmente parei de atualiza-lo e comcei a escrever uma vez por mês, se tanto. Além disso, ao invés de contar sobre a minha viagem resolvi contar a história dos indígenas equatorianos... confesso que isso fazia parte de um projeto mais ambicioso de fazer dele um espaço de experimentação jornalística que foi para o espaço no momento em que eu comecei a de fato escrever para jornais brasileiros a respeito da situação no Equador. A partir daí o blog e a experimentação foram para as cucuias.
O mais engraçado é que mesmo depois de passado o turbilhão da queda do Gutierrez o blog seguiu abandonado, até que finalmente estou de volta e quem ler esse blog vai ter muito pouca informação sobre o que de fato foi a minha viagem. Bom, obviamente eu não vou conseguir recuperar o tempo perdido aqui nessas poucas linhas, mas posso dizer que essa foi uma viagem de muitos aprendizados. Talvez o primeiro deles seja o de que viver é muito mais importante do que falar sobre a vida. E muitas vezes escrever sobre alguma coisa pode tirar todo o encanto de uma determinada vivência.
A segunda grande lição é que a vida é absolutamente incontrolável e "implanejável" (Rogério Magri ficaria orgulhoso desse vocábulo). Eu não acredito em deus, mas se ele existir sem dúvida é um velhinho sacana que fica rachando o bico dos desencontros das nossas vidas aqui em baixo... a gente planeja, planeja, planeja, só para chegar na hora e ver que não era nada daquilo.
Se prepara para cortar todos os laços antes de viajar e acaba se envolvendo com alguém no último momento...
Passa a viagem inteira esperando para voltar e reencontar a pessoa só para descobrir que na volta já não é mais nada daquilo...
Justo no momento em que a distância e a saudade parecem mais insuportáveis você encontra um louco que nem você disposto a ir para mais longe ainda, a se arriscar mais ainda...
Mesmo estando na capital mundial do tédio, onde parece que nada acontece, de repente você se vê diante do grande furo jornalístico da sua vida...
Passa dois meses estudando espanhol para se inscrever num curso em que boa parte das aulas é em catalão...
Cria um blog para contar sobre a viagem e fica escrevendo reflexões abstratas nele...
Enfim, a lista de paradoxos e desencontros poderia ser muito maior, mas acho que esses são suficientes por hora. Tudo isso para dizer que a breve vida desse "Good Morning Quito" foi marcada pela contradição e simplesmente encerra-lo ao voltar para o Brasil seria negar sua própria natureza. Terminar um blog sobre uma viagem no momento em que essa viagem acaba seria uma demonstração de coerência que contrariaria a própria "essência" dele.
É por isso que esse blog não acaba aqui, ele simplesmente muda de nome. Assim como em 2003 os zapatistas mataram os "aguascalientes" para dar vida aos "caracóis", nesse momento queria convida-los (se é que esse blog ainda tem algum leitor) para celebrar a morte do "Good Morning Quito" e o nascimento do "Scargot Intergalático" !
Bem... a explicação do novo nome ? Em primeiro lugar acho que ele reflete bem o espírito do blog, mas a origem do nome eu devo ao meu querido amigo Pinda (também conhecido como Francisco Figueiredo Souza), um leitor de primeira hora desse blog que me informou sobre o modo como um dos espaços de discussão do último Acampamento Intercontinental da Juventude, o "Caracol Intergalático", foi traduzido para o francês. No contexto da conversa "Scargot Intergalático" se referia ao modo como alguns termos originários do zapatismo eram apropriados por terceiros de uma forma um pouco esdrúxula. Aqui Scargot Intergalático reflete um pouco do meu estado de espírito atual, que poderia ser traduzido com uma certa exatidão pela imagem de de repente ter perdido o chão sob os pés (a imagem de um molusco com pretensões intergaláticas também é bastante reveladora).
Por que, no final das contas, eu sigo com esse blog ? Talvez pelo fato de estar passando pela estranha experiência de me sentir um estrangeiro no meu próprio país. Talvez por tudo isso a viagem não tenha terminado...
Sei que pela lógica eu deveria agora contar como foi a viagem para Chiapas e tal... prometo que num próximo post faço isso, mas diante da situação nesse exato momento na Bolívia queria postar uma pequena reflexão, rapidinha mesmo, aqui.
Bom, acho que não é mais segredo para ninguém que o nosso continente (sim brasileiros, nosso país, pasmem, faz parte da América Latina !) está num processo acelerado de transformação pelo menos desde 2000. De lá pra cá (isso para não voltar até 94 com o grande levante zapatista e 98 com a eleição do Chávez na Venezuela, que eu realmente acho que deram o pontapé inicial nisso tudo) não se passou um ano sem que acontecesse algum grande levante popular ou mesmo uma importante mudança na política institucional. Começo em 2000 com o levante indígena que levou à queda de Jamil Mahuad no Equador, o responsável pela dolarização do país, e a guerra da água na Bolívia; em seguida vem 2001 com os panelaço na argentina que derrubaram De La Rua e a Marcha pela dignidade indígena dos zapatistas no México; depois 2002 e as vitórias de Lula no Brasil e Gutierrez no Equador (ok, hoje sabemos que os dois são traidores, mas naquela época foram vitórias importantes do povo); passamos para 2003 e aí vem o levante na Bolívia que derrubou Sanchez de Lozada; chega 2004 e Chávez vence o referendo na Venezuela; e finalmente agora em 2005 em menos de seis meses vimos a eleição de Tabaré Vazquez no Uruguai, a queda de Gutierrez no Equador, o ataque ao Lopez-Obrador no México, uma nova ameaça de morte a Chávez na Venezuela e agora a possibilidade de uma revolução na Bolívia.
Oras, é claro que os Estados Unidos não estão sentados olhando tudo isso numa boa. Nesse exato momento existe também a possibilidade de um golpe fascista na Bolívia patrocinado pelos EUA, Gutierrez acaba de ir para a sede do império para tentar sua volta ao Equador, Chávez está ameaçado, etc, etc... O ponto é: para onde vamos agora ? E nós, como brasileiros, como ficamos nessa história ? Resolvi escrever isso aqui depois de ler um texto do Laerte Braga cujo título é "Sair para o pau". Qual é a idéia ? Lula é uma mosca-morta, está perdido, atordoado. Não seria maravilhoso para os Estados Unidos ter o Brasil de volta à uma orientação explicimtamente favorável a eles e ainda mais de costas ao resto da América Latina ? Qual é o meio para isso ? Muito simples, apenas três letrinhas: FHC. Ou seja, acho que precisamos ficar muito espertos com os tucanos e congêneres em 2006, porque se para o Brasil Lula ou FHC dá na mesma, o mesmo não é verdade para o conjunto da América Latina.
"Se você não pode ter a razão e a força escolha sempre a razão e deixe que o inimigo tenha a força. Em muitos combates a força pode obter a vitória, mas a luta toda só a razão vence. O poderoso nunca poderá tirar razão da sua força, mas nós sempre poderemos obter força a partir da razão"
Subcomandante Insurgente Marcos
Depois de dois meses de Equador resolvi finalmente fazer as malas e seguir viagem... para as monstanhas do sudeste mexicano !!!
É isso mesmo. Na verdade tudo aconteceu praticamente por acaso: conheci um brasileiro que estava de passagem aqui por Quito, o Pedro. Ele e uma amiga estavam fazendo mochilão pela América Latina desde janeiro, já tinham passado pela Argentina, Chile, Peru, Bolívia e finalmente vieram parar nessa terra de vulcões. O Pedro tinha escrito umas coisas para o Brasil de Fato sobre a Bolívia e o Paulo, editor do jornal, passou o meu contato aqui no Equador.
Bom, o inusitado da coisa já começou no nosso primeiro encontro: foi justamente no dia 13 de abril, dia do primeiro protesto contra o Gutierrez, e acabamos nos conhecendo sob pedras e gases lacrimogênio. Aliás, uma curiosidade: o gás lacrimogênio usado pela polícia equatoriana é "made in usa"... sugestivo, não ?
Acabamos trocando idéia, ele comentou que pretendia seguir viagem se possível até a América Central e eu comentei do meu eterno projeto de conhecer Chiapas... pois bem, o tempo passou, ele seguiu viagem para o norte e eu fiquei por aqui para viver minha odisséia jornalística no Equador (valeu Gutierrez, fico te devendo essa...). Aparentemente tinha ficado tudo por isso mesmo...
Mas não é que umas duas semanas depois recebo um e-mail do Pedro dizendo que teve que voltar para Quito porque a amiga decidiu voltar para o Brasil e ele estava em busca de alguém para seguir viagem ? Pois bem, resolvi ir conversar com ele só para cumprir tabela, já estava decidido a ficar no Equador e preparar minha volta pro Brasil. O que passa é que justamente nessa época a Mexicana de aviación estava com uma promoção para a passagem Quito-Cidade do México, por apenas 293 dólares !!! É isso mesmo, uma passagem de ida e volta que normalmente custa mais de 500 dólares por 293 !
Aquilo mexeu comigo, mas não achei que eu realmente fosse topar a parada... mas aí parei, pensei bem e disse pra mim mesmo "por que não ?". Resumo da ópera: no último dia da promoção lá estávamos nós dois na Mexicana para comprar a passagem.
E foi assim... do nada !
Atualmente estou me despedindo de Quito, e não é que aos 45 do segundo tempo tô notando algumas belezas nessa cidade que eu tanto meti o pau ? Sério, ultimamente tem feito uns dias super bonitos, céu azul, azul, e aí começou a dar para ver melhor as montanhas que estão ao redor da cidade toda, e que vistas a partir de alguns pontos são realmente lindas. Para vcs terem uma idéia, sexta passada eu consegui até ver a ponta nevada de algum dos vulcões que ficam ao sul de Quito ! Foi realmente bonito.
O momento da partida acho que deixa a gente mais emotivo, né ? Ontem, por exemplo me deu até uma ponta de saudade antecipada… estava andando e passei perto do lugar de uma manifestação no dia que o Gutierrez caiu, aí bateu uma nostalgia. Mas enfim… hoje fiz o bendito exame de espanhol para o qual estive estudando esses últimos dois meses. Bom, foi uma puta tensão, mas beleza, agora é esperar o resultado.
Bom gente, há um bom tempo que eu estava querendo escrever uma mensagem super bonita, longa, contando muitos detalhes, mas a hora da partida tá chegando e o máximo que eu consegui foi esse aqui, contando as novidades.
Lá em Chiapas não sei em que condições vamos ficar. Já fizemos contatos com várias organizações de San Cristóbal de Las Casas e existe uma boa possibilidade de ficarmos em um dos caracóis zapatistas… estamos torcendo. O fato é que não sei qual vai ser nossa infra estrutura lá, se vamos ter acesso à internet (provavelmente não, afinal vamos estar no meio da selva), então pode ser que a partir de segunda-feira a comunicação online fique meio difícil.
Bom, é mais ou menos isso por hora… saudades de todos e em junho estou de volta ao Brasil.
Saudações rebeldes
Ha Ha !!!
Vocês acharam que eu tinha desistido, certo ? Bom, quase, mas cá estou eu e como toda parte 1 exige uma parte 2 vou terminar a minha breve síntese do movimento indígena equatoriano. Na verdade eu vou terminar só por desencargo de consciência, para me livrar do peso da continuação.
Antes, porém um esclarecimento: esse longo e tenebroso inverno sem postar foi por dois motivos. Primeiro foi falta de tempo mesmo, mas em segundo lugar foi por questionamentos teóricos e pessoais também. Comecei a fazer um curso de Antropologia Política na Flacso (Faculdade Latinoamericana de Ciencias Sociais), e a partir dos textos e discussões da aula comecei a me sentir mal com esse papelzinho que eu tava me arrogando de tecer observações sobre essa cultura diferente que é o Equador. Depois que eu vi toda a nojeira que está por trás do nascimento da antropologia e de como eu estava me prestando um pouco a um papelizinho semelhante me bateu uma certa crise.
Bem, noves fora, aqui estou, back in black, e vamos à segunda parte da incrível saga dos indígenas equatorianos:
Antes de mais nada, uma informação que eu esqueci de acrescentar na primeira parte: segundo algumas pessoas com quem eu conversei o começo da organização de algumas (ou todas, não sei) comunidades na década de 70 esteve ligada à reforma agrária e ao trabalho da Teologia da Libertação. Para variar um pouco, a parte que presta da Igreja envolvida na construção da organização social na América Latina. Aliás, um parêntesis rápido: que "tragédia" a morte do papa hein ? Essa figura tão "democrática" e que "contribuiu" tanto para aprofundar os avanços sociais da Igreja... viva a Opus Dei !!!
Bem, voltando à vaca fria: depois do surgimento da Ecuarunari e da Confeniae, finalmente em 1986 foi fundada a Conaie - Confederação das Nações Indígenas do Equador. Com a Conaie os povos indígenas conseguiram pela primeira vez uma organização nacional, juntando etnias da costa, da serra e da amazônia.
O resultado de todo esse processo organizativo veio a luz em 1990. Naquele ano, durante um mês, os indígenas simplesmente pararam o país. Ok... não tenho certeza se o país inteiro, mas pelo menos a serra. Estradas bloqueadas, cidades ocupadas, centrais elétricas desativadas. Esse foi o grande levante de 1990.
Até então os indígenas não tinham voz no cenário político nacional, eram vistos como subraça, etc, etc... A partir de 90, o Equador descobriu, atônito, os seus indígenas. Ele realizaram pelo menos mais três levantes durante os anos 90.
A partir dessa demonstração de força surgiu a idéia da criação de um movimento político que possbilitasse aos indígenas conquistarem representantes dentro da política institucional. Desse processo nasce, em 1995, o Pachakutik, o partido indígena equatoriano.
Vale dizer aqui que a luta política dos indígenas não se restringia a reivindicações. Ainda que o levante de 1990 tivesse como bandeiras imediatas a luta pela terra e o diereito à educação bilíngue (quíchua/espanhol), por trás dele havia um projeto político bem ais ambicioso: a construção de um novo Estado equatoriano, sobre novas bases, um Estado plurinacional. Mas não apenas um estado plurinacional. Esse projeto político envolve a construção de uma nova democracia participativa, baseada em assembléias populares e descentralização do poder.
Em 1996, nas primeiras eleições disputadas pelo Pachakutik, o cantão (uma unidade territorial que equivale ao município brasileiro) de Cotacachi, na província de Imbabura (e vizinho de Otavalo, diga-se de passagem), elegeu o primeiro prefeito prefeito indígena do Equador. Seu nome ? Auki Tituaña Males. Economista formado em Cuba, Tituaña começou a implantar em Cotacachi aquilo que hoje é visto como uma espécie de vitrine do novo modelo político proposto pelo movimento indígena. O cara á foi reeleito, está há 9 anos na prefeitura de Cotacachi e vai ficar até 2009. Suas votações foram na casa dos 70% e 80%. Bom, aguardem novidades sobre o dr. Tituaña logo mais.
Segundo o próprio Auki, a construção desse novo modelo político começou nos governos locais, que já são 29 (Otavalo inclusive), que seriam uma espécie de acúmulo de experiências enquanto os indígenas não chegam ao governo nacional.
A chegada ao governo nacional, aliás, é um capítulo à parte... Em 2000 os povos indígenas equatorianos participaram de um novo levante que depôs o então presidente Jamil Mahuad. Logo após a queda do presidente foi formado um triumvirato composto por um indígena (Antonio Vargas, então presidente da Conaie), um militar (Lucio Gutierrez) e um civil (que eu não lembro o nome). Esse triumvirato não chegou a ficar mais de algumas hora no poder até que o vice de Mahuad, Gustavo Noboa, assumisse a presidência, onde ficou até as eleições de 2002. Um pequeno aparte: o título do livro do Javier Ponce - "E a madrugada os surpreendeu no poder" - se refere justamente à passagem do triumvirato pelo Carondelet (sede do governo federal), quando depois da queda de Mahuad aqueles que o derrubaram se viram meio sem saber o que fazer diante daquele palácio presidencial vazio em plena madrugada.
Finalmente, em 2002, Lucio Gutierrez um engenheiro do exército, lançou sua candidatura à presidente apoiado pelos indígenas. Com a vitória de Gutierrez nas urnas o Pachakutik, que integrava a chapa do militar, chegou ao poder. Inclusive com a indicação de membros do partido, como Nina Pacari e Antonio Vargas, para ministérios como o das Relações Exteriores e do Bem Estar Social.
Mas aquilo que poderia ser sonho tornou-se pesadelo. Seis meses depois da posse o governo virou às costas para as propostas do Pachakutik e o partido rompeu a aliança, saindo oficialmente do governo e entregando parte dos cargos que tinha. Parte, pois a partir de então começou um racha no interior do movimento indígena, entre as alas que permaneceram apoiando o governo, cujo principal representante é Antonio Vargas, que segue sendo o Ministro do Bem-Estar Social; e as alas que passaram para a oposição frontal e declarada, que passaram a qualificar Gutierrez como um traidor.
Aproveitando a brecha, o governo Gutierrez tem trabalhado para aprofundar essa divisão através, inclusive, da tentativa de promover a criação de uma nova Conaie por meio da figura de Antonio Vargas. Vargas e alguns representantes de etnias da região amazônica alegam que a eleição do atual presidente da Conaie, Luis Macas, não é representativa do conjunto dos indígenas equatorianos.
Se em 1990 eles pararam o país e em 2000 derrubaram um presidente, hoje os indígenas equatorianos se encontram diante de uma encruzilhada. Segundo Auki Tituaña, no entanto, tudo é uma questão de tempo para que o movimento retome sua luta.
P.S.: Para quem quiser uma fonte de informação mais confiável sobre o assunto uma boa dica é o site www.llacta.org - muito bom !
Antes de mais nada é bom explicar que a situação do indígena no Equador é bem diferente (pelo menos até onde eu sei) da situação do indígena no Brasil. Ao contrário daí, aqui os indígenas estão por toda parte, eles não estão restritos a comunidades isoladas no meio da floresta, apesar de que isso exista bastante também na região da Amazônia.
Os números em relação à porcentagem da população que se reconhece como indígena são uma grande incógnita. Para variar eu vou ter que me desmentir mais uma vez e dizer que certamente aquele número que eu andei divulgando de 80% é absolutamente falso (isso é o que dá ficar confiando em informação tirada de sites desconhecidos da internet). As organizações indígenas costumam trabalhar com um número de aproximadamente 40% da população; um estudo de um pesquisador chamado José Sánchez Parga de 1990 indicava que os indígenas eram 7,2% da população; um documento de trabalho da OMS de 1993 apontava para um número de 24,85% e segundo o Javier Ponce (jornalista equatoriano especializado no tema, só para lembrar) esse número não passa dos 12% ou 13%. Conclusão: não faço a menor idéia de qual é de fato essa proporção…
Números à parte, o que importa é que os indígenas de fato são uma parcela significativa da população do país e nem de longe foram eliminados pelos espanhóis. Muito pelo contrário: ao longo de toda a história do que viria a ser o Equador houve uma infinidade de levantes indígenas contra os colonizadores, e muitas das cerimônias e símbolos do catolicismo por aqui foram erguidos sobre a cultura indígena que já existia e não simplesmente colocados no seu lugar, como disse o Javier. O resultado disso é um país onde você vê diariamente homens e mulheres de pele bem escura, usando chapéus de feltro, saias, ponchos e colares bastante característicos e carregando seus filhos nas costas em uma espécie de tipóia aumentada.
Claro, essa é a descrição dos indígenas da região da Serra, da parte do país que fica na Cordilheira dos Andes. É sempre bom lembrar que o Equador tem três regiões bem distintas entre si: Costa (litoral), Serra (Andes) e Oriente (Amazônia). E, obviamente, as etnias indígenas de cada região são bem diferentes entre si. Na Serra, apesar de existirem diversas comunidades, com costumes próprios de cada uma delas, há uma identidade comum Quichua. Há os Quichuas de Otavalo (já conhecidos por aqui), os Quichuas Salasacas, Quichuas Saraguros e outros, mas todos se reconhecem como parte da grande etnia Quichua, que é característica da Cordilheira dos Andes e descendente diretamente dos Incas. O Quichua é a principal língua indígena, não só no Equador como também em outros países andinos. Os indígenas da Serra, por motivos óbvios, são os que se encaixam no estereótipo do indígena andino. Já na região da Amazônia equatoriana (Oriente), também há Quichuas, os Quichuas del Oriente, que inclusive são a etnia mais numerosa, mas nessa região há várias outras: os Shuar/Achuar, que também são bastante numerosos e tem o costume de reduzir cabeças, diminuindo os crânios dos inimigos vencidos em combate através de uma prática que visa “reciclar” a alma do vencido; e os Huaroani/Aushiri, Siona, Secoya e Cofán, que são etnias menores reunidas em pequenas comunidades na selva. Os grupos indígenas da região da Amazônia equatoriana em geral são parecidos com os da Amazonia brasileira: pintam o corpo, andam ou pelados ou com pouca roupa (afinal o clima é o da selva…), são mais dispersos, etc… Serra e Oriente são as regiões onde de fato a presença indígena é marcante. Há grupos indígenas na Costa, como os Tsáchila/Colorado, os Awa-Coiaquer, os Chachi/Cayapa e os Huancavilca, mas são poucos. A região da Costa, que é a mais povoada do país (cerca de metade da população) é também aquela onde há menos indígenas ou onde eles menos se assumem enquanto tais, dado que a sua cultura já está bastante ou totalmente diluída entre a cultura branca e mestiça, segundo o Javier.
Apesar da história do Equador ter sido marcada por levantes indígenas em todos os seus períodos, essa resistência sempre foi apenas localizada. Havia uma revolta em uma comunidade contra uma questão específica e a coisa ficava por isso mesmo. Segundo o Javier, a primeira vez que de fato se articulou um movimento mais coordenado entre as diferentes comunidades e etnias foi em 1945 com a criação da Federación Ecuatoriana de Indios (FEI), braço indígena do Partido Comunista equatoriano, que era um instrumento de mobilização junto às bases indígenas para reivindicar a reforma agrária. Ao contrário do Brasil, no Equador a luta resultou em uma reforma agrária de fato. Ou melhor, em duas: uma em 1963, que deu aos indígenas a posse das terras que cultivavam no interior das grandes fazendas (huasipungos), e a de 1973, onde houve de fato a redistribuição de cerca de 15% das terras do país, segundo Javier. Mas, como nem tudo são flores, a posse da terra não foi acompanhada de programas de incentivo aos pequenos agricultores e as terras distribuídas não eram lá as melhores. No longo prazo o resultado disso foi que conforme a terra ia se desgastando e se dividindo entre as novas gerações, a agricultura indígena ia se tornando mais precária, o que acaba levando a uma migração para as cidades, ainda que numa proporção menor.
Essa primeira organização dos indígenas equatorianos ficou mais restrita aos anos 50 e 60, até porque a demanda por reforma agrária foi atendida. A partir dos anos 70, no entanto, começou uma nova forma de organização das comunidades indígenas, só que agora a partir de outras bases. Como explica o Javier Ponce, nos anos 50/60 a organização dos indígenas passava por intermediários (partidos e sindicatos); já a nova organização que se inicia nos anos 70 se diferencia por um motivo bem simples: era uma organização surgida a partir das próprias comunidades indígenas, era o indígena falando por si mesmo e não mais através de intermediários. A semente dessa organização está em uma associação entre grupos da Serra surgida em 1973, a Ecuarunari , que foi seguida pela criação de uma confederação amazônica em 1980, a Confenaie.
Continua...